Durand, para sempre nosso mestre

Gilbert Durand morreu na última sexta-feira, dia 7 de dezembro, cercado por seus próximos. Foi sob seu sopro inspirador que nasceu o Imaginalis, grupo de estudos sobre Comunicação e Imaginário. Como nós estamos órfãos, muitos outros pesquisadores filhos de Durand também estão.

Suas ideias, desafiadoras e vivificantes, eram desconfortável nos anos 1960, postulando a dinâmica social através de um mito diretor, já um tanto degradado e enrijecido, mas ainda mito,  que ditaria as regras, enquanto um outro mito, com toda a sua pujança contestatória, aguardaria no inconsciente antropológico o momento de fazer sua aparição.

A obra de Durand encontrou terreno fértil para florescer ao redor da mesa de Eranos, junto com Mircea Eliade, Henri Corbin, Jung e mais meia dúzia de pensadores brilhantes que se reuniam para, como disse Durand (Structures Éranos I. Paris, La Table Ronde, 2003), expressar “[…] uma verdade que não se ousava dizer livremente então nas universidades.” A atração desses pensadores pelo hermetismo, pela alquimia e pela gnose se explicava porque essas teorias não olhavam para o mundo como uma longa cadeia racional, e sim como um jogo de homologias. Há muitas consequências esperando serem tiradas da fantástica transcendental proposta por Durand, inclusive e especialmente no campo da Comunicação, esta fábrica de mitos contemporânea. Isso é trabalho para muitos anos de pesquisa, ainda, à qual nos lançamos com entusiasmo como tem sido até agora.

Por ora, queremos nos aproximar humanamente de nosso mestre. Escolhi para isso a sua narrativa singela da primeira vez em que foi a Eranos, às margens do lago Maggiore, em Ascona, na Suíça:

A aparição insólita dos fios elétricos foi brutal, em plena natureza selvagem. Andamos a pé e vinte metros mais abaixo, à esquerda, o pequeno painel timidamente escondido entre os cedros: "Éranos". A pequena porta era mágica: assim que ela foi fechada, os ruídos e incidentes da estrada desapareceram. Um silêncio úmido e quente, na penumbra da manhã, destilava um pesado perfume de cânfora e de canela. Descemos com nossas malas. Bem rápido, "os Durand" foram anunciados, as portas se abriam, nós éramos interpelados. Corbin estava lá. Instalei-me no alto da casa, em um pequeno quarto com antecâmera. O lago se movia suavemente dois andares abaixo,  um dos quais era a recepção, o outro a cozinha! [...] E eu adivinhava ao longe, por entre a bruma da água e os entrelaçamentos de um enorme eucalipto, o grande lago em preguiçoso suspiro, e ao sul a presença da "ilha verde"... Eu não sabia que durante vinte  e cinco anos, esta modesta mansarda seria o meu chão..."

Gilbert Durand (01/05/1921 - 07/12/2012)

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