Centro de Pesquisas Internacionais sobre o Imaginário é proposto em Cluj-Napoca

Uma nova etapa começa para os estudos do imaginário, uma etapa que deverá ser caracterizada por um fôlego interdisciplinar e internacional, para além do mundo francófono. Estas intenções foram explicitadas no último dia do Congresso dos Centros de Pesquisas sobre o Imaginário, em 6 de outubro, em Cluj, Romênia, na Universitatea Babes-Bolyai.

Após dois dias de intensas jornadas de trabalho em torno do tema “Topografias do mal: do lugar infernal à antiutopia”, os cerca de 40 pesquisadores, vindos de 12 países diferentes, representando quatro continentes, se reuniram para discutir a transição do CRI (Centre de Recherches sur l’Imaginaire) para o CRII (Centre de Recherches Internationales sur l’Imaginaire).

O CRI foi fundado em dezembro de 1966, na Faculté de Lettres de Grenoble, proposto por Gilbert Durand, Paul Deschamps e Léon Cellier.  Na década seguinte, Gilbert Durand buscou, junto ao CNRS, a integração dos laboratórios estrangeiros que pesquisavam paralelamente sobre o imaginário e que, em 1982, por decisão do CNRS, foram reunidos através do CRI-GRECO 56.

De lá para cá, multiplicaram-se pelo mundo os centros de pesquisa sobre o imaginário. Um comitê de iniciativa formado por Corin Braga (Universitatea Babes-Bolyai, Roumanie), Philippe Walter (Université Stendhal, Grenoble 3, France) e Jean-Jacques Wunenburger (Université Jean Moulin, Lyon 3, France) lançou a ideia de inaugurar uma nova etapa da jornada, acrescentando um “i”ao nome inicial da rede, significando sua internacionalização definitiva, e buscando ao mesmo tempo mais integração e dinamismo entre os grupos.

Talvez o 06 de outubro de 2012 seja lembrado como o marco histórico dessa nova fase de metamorfose, como disse Wunenburger então: “É necessário dar espaço às novas gerações. Há hoje uma evolução do conceito de imaginário e uma ampliação da rede de centros de pesquisa. Nós somos todos filhos de Gilbert [Durand], e ele está acompanhando o que se passa aqui. Recebi ontem uma mensagem de sua esposa dizendo que Gilbert está feliz e nos deseja um bom trabalho”.

Wunenburger ressaltou a importância de se considerar a internacionalização da pesquisa, já que os estudos do imaginário estão presentes no mundo todo. Para tanto, a abertura interdisciplinar é imprescindível: “Nenhuma disciplina pode encabeçar  as pesquisas sobre o imaginário. A sociologia e a literatura guiaram os trabalho no último decênio, mas é necessário dar lugar às outras disciplinas”, disse.

Agora, há a preocupação de renovar o modo de gerir e animar a rede, com mais interatividade e de um modo mais participativo. Wunenburger ressaltou que, sem nenhuma “vontade de hegemonia científica ou ideológica”, é necessário se deter sobre o que é fundamental: a herança durandiana. Segundo o filósofo, o durandismo não é idolatria a uma pessoa nem um dogamtismo de método, mas um campo de trabalho que foi aberto no espírito de seu fundador e que nós continuamos a desenvolver, a enriquecer. E sublinha: “É necessário dar-lhe (ao imaginário) um sentido operador nas Ciências Humanas e Sociais, evitar certas derivações, certas banalizações, e por isso é necessário que em certo momento nos reportemos à tradição”.

Reconhecem-se hoje muitos métodos paralelos e complementares e, segundo Wunenburger, não se trata de um campo de batalha, não se trata da simbólica contra a semiótica, do estruturalismo contra a hermenêutica, pois estas categorias podem se cruzar, mas “não se pode misturar tudo de qualquer jeito. Uma hibridação não funciona sempre, é necessário partir do corpus de conceitos”.

Wunenburger aponta o grande ponto em comum de todas as pesquisas sobre o imaginário: que há um homo symbolicus, ou seja, toda a humanidade possui estruturas de simbolização comuns e que os homens são antes unidos pelo imaginário do que pela razão. Estas grandes estruturas, ainda que permanentes, são diversificadas e diversificáveis. Como conjugar os universos antropológicos e a variação cultural?  “O maior problema da humanidade hoje é obter as ferramentas para compreender como podemos de uma só vez viver no universal e respeitar a diversidade cultural. É necessário conservar a diversidade, mas essa diversidade não pode recair sobre o relativismo absoluto, pois há uma linguagem humana comum na arte, na religião, na tecnologia… ”

Dois meses depois do congresso de Cluj, nosso grande mestre Gilbert Durand teria partido. A maior homenagem que podemos lhe prestar é honrar sua obra fazendo com que ela frutifique ainda mais.

Ficou acertada para o início da 2013 a elaboração de uma minuta do estatuto que vai reger o CRII e sua discussão entre todos os grupos de pesquisa que desejem se associar à rede.

 

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