Encontro com Gilbert Durand: ternura

Danielle Perin da Rocha Pitta

 

Professora colaboradora da UFPE, Presidente da Associação Nacional Ylê Setí do Imaginário e Representante das Américas no comitê diretivo do CRI2i.

 

Cheguei em Grenoble, vinda de São Paulo onde estudei no Lycée Pasteur, em 1967. Eu tinha um diploma equivalente ao primeiro ano de faculdade e assim, ingressei na Université de Grenoble II, no segundo ano de sociologia.  Na época, quando o professor entrava na sala de aula, todos os estudantes se levantavam e esperavam o sinal do professor para voltar a sentar. A aula era dita “magistral”, isto é, a aula era expositiva, e mal o professor terminava de falar, saia da sala. Nada de debates, nada de questões, nada de diálogo.

Entre os meus professores, o de sociologia, Gilbert Durand. Na época com 46 anos, era objeto de paixão por parte das alunas. Toda uma mitologia de sedutor o acompanhava: contavam onde, quando e como tinha seduzido grande número de mulheres. Como docente, apresentava estritamente o conteúdo oficial da disciplina e nada sabíamos então, nós os alunos (não existia internet!) dos trabalhos publicados e das pesquisas que desenvolvia sobre o imaginário.

Maio 68 se aproximava. A revolta era geral, dos trabalhadores e dos estudantes, contra as políticas e a educação da época. A reivindicação: “o imaginário no poder”. Era o início da pós-modernidade. A partir de então, as aulas não foram mais “magistrais” e o diálogo entre professores e alunos teve início.

Minha aproximação com o professor se deu mais tarde quando eu já fazia a “maîtrise” e comecei a ler “as estruturas antropológicas do imaginário”. Confesso que de início, o vocabulário rebuscado, muitas vezes técnico, relativo a outras disciplinas (medicina, psicologia, arquitetura…), as referências a várias filosofias e a diversos contextos culturais,  chegaram a me revoltar: me dava conta da importância da proposta mas não conseguia entender nem a metade das argumentações. A compreensão só veio bem mais tarde.

A aproximação se deu realmente quando fiz minha inscrição em tese (doctorat d’état, na época) e pedi a Gilbert Durand para ser meu orientador (directeur de thèse). Tivemos um primeiro encontro durante o qual foram estabelecidos o objetivo da tese e o método a ser desenvolvido. Comecei então a participar, em Chambéry, dos Ciclo de Estudos sobre o Imaginário que ele organizava. Foi em um destes encontros (em 1973) que pude mostrar meu projeto a Roger Bastide e ser aconselhada a fazer o campo da pesquisa no nordeste do Brasil, que eu não conhecia. Vim para Recife onde o então Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais (IJNPS) fundou sob minha direção, em 1975, o primeiro Centro de Pesquisas sobre o Imaginário do Brasil. Na época, um único livro de Bachelard tinha sido traduzido para o português: a Poética do Espaço.

Só voltei para Grenoble em 1978 para terminar a tese e defendê-la em 1979. Foi quando tive meu segundo encontro com Gilbert Durand, que me assegurou que eu estava no bom caminho. O terceiro, foi para entregar a tese pronta.

Este pequeno histórico mostra bem o quanto estudante e orientador ainda eram distantes. Hoje (2013) esta relação é bem diferente. Mas, uma vez a tese defendida, tudo mudou. O diálogo se estabeleceu (quase) de igual para igual.

A partir de 1975, com a fundação do Centro, a obra de Durand começa a ser divulgada no Brasil e o primeiro interlocutor é o antropólogo da USP, José Carlos de Paula Carvalho.  O primeiro Ciclo de Estudos sobre o Imaginário acontece no Recife em 1976 com a participação de Jean Duvignaud.

Em 1995, o CICE (Centro de Estudos em Imaginário, Cultura e Educação da USP) já reagrupa pesquisadores de vários Estados do Brasil, todos trabalhando com teoria e método de Gilbert Durand. Tais estudos abrangem várias áreas de conhecimento: educação, antropologia, sociologia, psicologia, filosofia, literatura, comunicação, jornalismo, arquitetura, saúde, meio ambiente, e outras.

Gilbert Durand vem ao Brasil pela primeira vez em 1989, a meu convite e o do IJNPS para participar do  sétimo Ciclo de Estudos sobre o tema: Imaginário dos Excluídos.

A ligação entre Gilbert Durand e o Brasil certamente começa com Roger Bastide. Segundo CIaude Ravelet, um Roger Bastide que tem o “senso dos abismos” e “demonstra um individualismo metodológico indo além do cálculo frio do lucro para levar em conta os sonhos e as paixões. […] Longe de cair em um psicologismo, Bastide será o primeiro a mostrar a inserção do social até no delírio e na loucura. Alem disto, é preciso levar em consideração seus cinco principais temas que são: “a sociologia da religião, a interpenetração das civilizações, a arte e a poesia, o irracional, as doenças mentais, tendo como fio de Ariadne a busca do sagrado”. Os pontos de convergência são pois importantes e estabelecerão laços profundos entre eles, que não serão estranhos à vinda de Gilbert Durand ao Brasil.

A comoção causada pela partida física de Gilbert Durand me deixou um tempo imobilizado na expressão de minha dor. No entanto, como ele mesmo nos ensinou, sua obra tendo-o tornado imortal, é dela que devemos retirar as forças necessárias para lidar com a separação física. Gostaria de dizer que o Brasil, país onde vivo e trabalho, é particularmente receptivo à sua obra que corresponde bem às suas características culturais: espírito barroco e pós-moderno, diversidade de culturas em interação cotidiana acelerada. Nas universidades, os estudantes esmagados sob o peso das teorias clássicas (positivismo, evolucionismo, funcionalismo, marxismo, etc.), tão distante da vivência cotidiana local,revivem quando entram em contato com a teoria e o método do Mestre. Entrar por suas palavras no mundo dos símbolos é para eles um “maravilhamento” (émerveillement) e uma abertura impar para o mundo. É por isso que, sem dúvida, os seus ensinamentos estão se multiplicando em vários campos do conhecimento. Em Antropologia: estudos comparativos de grupos culturais, da arte, dos idosos, dos discursos políticos, em medicina (doadores de rins, câncer, estética, etc.), dos RPG virtuais ou não; na educação: “mediações simbólicas” nas organizações da Universidade de São Paulo (USP), a dimensão educativa nos cultos afro-brasileiros na Universidade de Santa Cruz na Bahia, entre outros; em história: um estudo da bacia semântica ligada à Inquisição, na Universidade Federal da Paraíba; em Literatura, com Maria Teresa Strongoli da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e, agora, em Minas Gerais, e Sebastien Joachim em Campina Grande ( UFPB ); em Arquitetura, onde o método derivado do teste AT- 9 por mim proposto é usado na USP; em Comunicação: na Universidade Federal do Rio Grande do Sul; em Sociologia da vida cotidiana (Michel Maffesoli ), em várias Universidades. Entre outros. Trata-se, na minha opinião, da única antropologia, a do imaginário, que nos permite perceber o outro e dialogar com este outro em pé de igualdade, em uma situação de respeito mútuo. Mas, o que parece fundamental, é que a teoria de Gilbert Durand, mesmo que se tenha conhecimento dela numa universidade, torna-se rapidamente uma nova percepção do mundo e tem por conseqüência uma ação imediata: teoria e prática são aqui indissociáveis. Para mim, pessoalmente, ela trouxe, através da compreensão do mundo que ela propicia, um entusiasmo pela vida e um amor pelo outro que me permitiu ter uma vida feliz, ensolarada, onde as sombras foram uma convite ao conhecimento. Agradeço-lhe do fundo da minha alma.

(Parte deste texto foi apresentado na Journée d’hommage Gilbert Durand, em 19 juin 2013, na Université Paris Descartes – Sorbonne.)

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